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Reforma Tributária no ar: sua estratégia financeira está preparada para o novo jogo?

A virada do calendário trouxe mais do que um novo ano fiscal. Trouxe a Reforma Tributária para o centro da operação das empresas — não como um tema fiscal, mas como um tema de caixa, liquidez e decisão estratégica.

A Reforma não será um problema para empresas preparadas. Será um teste de maturidade financeira. Quem continuar tomando decisões com indicadores antigos corre o risco de crescer destruindo caixa.

Ao longo de 2025, organizações de médio e grande porte investiram pesado em adequação: estudo da legislação, projetos de consultoria, revisões profundas de processos e, em muitos casos, atualizações estruturais de ERPs e sistemas. Esse esforço foi relevante — e necessário. Mas a fase atual exige mais do que conformidade.

A Reforma Tributária do Consumo representa uma das maiores transformações estruturais do ambiente de negócios desde a Constituição de 1988. Ela não altera apenas a apuração de tributos, mas impacta diretamente precificação, modelo operacional, fluxo de caixa, indicadores financeiros e decisões estratégicas.

Estudos da EY indicam que mais de 50% dos processos internos são afetados, atravessando Finanças, Contabilidade, Fiscal, Compras, Vendas, Logística, Jurídico, Tecnologia e Governança. Trata-se, portanto, de uma reforma de negócio, não apenas fiscal.

Em 2026, a pergunta central da alta gestão já não é mais “como se adequar”, mas:

Como operar, decidir e crescer em um modelo tributário que muda estruturalmente o caixa e a leitura dos números?

Reforma Tributária: por que as mudanças estão apenas começando

A Reforma não acontece de forma pontual. Trata-se de uma jornada de transformação progressiva, com convivência simultânea de sistemas, ajustes regulatórios frequentes e pressão crescente sobre liquidez, margem e eficiência operacional.

Esperar estabilidade é uma ilusão perigosa. O diferencial competitivo não estará em acertar o “modelo final”, mas em desenvolver capacidade contínua de adaptação, leitura de cenários e disciplina na tomada de decisão financeira

O novo jogo competitivo para médias e grandes empresas

Com a entrada efetiva da Reforma, o jogo competitivo muda de patamar. O novo modelo elimina, de forma estrutural, a guerra fiscal entre estados e municípios. Benefícios regionais e decisões baseadas exclusivamente em localização deixam de sustentar vantagem competitiva.

A partir de agora, vantagem competitiva passa a ser sinônimo de eficiência real.

Isso exige uma revisão profunda do modelo de negócio:

  • Estrutura de custos sem subsídios invisíveis.
  • Precificação mais transparente e comparável.
  • Decisões operacionais e logísticas baseadas em eficiência, não em distorções fiscais.
  • Margens por produto, canal e cliente refletindo a realidade econômica.

O foco estratégico deixa de ser “onde pagar menos imposto” e passa a ser como operar melhor do que os concorrentes.

Split Payment e fluxo de caixa: o maior impacto da Reforma Tributária

Se a Reforma muda a estratégia, o Split Payment muda o caixa — e muda agora.

No modelo anterior, havia um intervalo entre o recebimento da venda e o pagamento dos tributos. Esse intervalo funcionava, na prática, como uma fonte adicional de capital de giro. Com o Split Payment, esse colchão desaparece.

Exemplo prático:

  • Venda: R$ 1.000.

Modelo anterior:

  • Caixa imediato: R$ 1.000.
  • Tributos pagos posteriormente.

Modelo com Split Payment:

  • Caixa imediato: ~R$ 720.
  • Tributos (~R$ 280) recolhidos automaticamente.

Multiplicado por centenas ou milhares de transações, o impacto deixa de ser operacional e se torna estrutural. Não se trata de um desvio temporário de caixa, mas de uma redução permanente da liquidez disponível.

Empresas que não recalcularem imediatamente sua necessidade de capital de giro passarão a financiar crescimento com dívida, comprimindo margem, reduzindo flexibilidade estratégica e, em alguns casos, crescendo de forma economicamente inviável sem perceber.

Impacto nos indicadores contábeis e financeiros

A Reforma não altera apenas o recolhimento de tributos — ela altera a leitura dos demonstrativos financeiros.

Indicadores mais impactados incluem:

  • Liquidez Corrente e Liquidez Seca.
  • Capital de Giro.
  • Ciclo de Caixa.
  • Margem EBITDA.
  • ROIC.
  • Índices de Eficiência Operacional.

Sem os devidos ajustes analíticos, empresas financeiramente saudáveis podem aparentar piora de liquidez ou eficiência, mesmo sem deterioração econômica real. O risco não está apenas no número, mas na decisão tomada a partir de um indicador mal interpretado.

O maior risco não é perder margem, mas crescer destruindo caixa acreditando estar saudável.

Vale ressaltar que o IBS e a CBS são não cumulativos para a Pessoa Jurídica, assegurando o crédito integral do imposto, com impacto temporário na liquidez e no capital de giro até a realização dos créditos. No curto prazo, pode haver pressão financeira; no médio prazo, prevalece a neutralidade econômica. Por isso, não há cashback para PJ: o ajuste ocorre via créditos tributários, ressarcimentos e desoneração. O cashback é exclusivo da PF, enquanto o crédito tributário elimina a cumulatividade da PJ.

O novo papel do CEO e do CFO no pós-Reforma Tributária

Nesse novo cenário, estratégia, finanças e operação tornam-se indissociáveis. CEOs e CFOs que ainda tratam fluxo de caixa como um relatório mensal já estão atrasados.

Os próximos passos exigem disciplina e método:

  • Planejar o fluxo de caixa com maior frequência e granularidade.
  • Tratar capital de giro como ativo estratégico.
  • Revisar prazos comerciais, políticas de crédito e negociação com fornecedores.
  • Acompanhar de perto indicadores de liquidez, endividamento, rentabilidade, atividade e eficiência.
  • Tomar decisões com base em simulações e cenários atualizados.

Em breve, conselhos, auditores e credores passarão a questionar variações de liquidez e margem que não estejam claramente explicadas. CFOs que não dominarem essa nova leitura ficarão expostos.

O que deveria estar na agenda do CEO e do CFO nos próximos 90 dias

O maior risco não é descumprir a Reforma Tributária. É continuar decidindo com base em uma leitura antiga dos números.

Alguns temas que precisam estar no centro da agenda:

  • Recalcular o fluxo de caixa operacional considerando Split Payment, com projeções semanais e mensais, quantificando:
    • redução efetiva de liquidez,
    • aumento da necessidade de capital de giro,
    • impacto direto sobre linhas de crédito e custo financeiro.

  • Recalibrar os principais indicadores financeiros (liquidez, ciclo de caixa, margem EBITDA, ROIC), definindo:
    • novos parâmetros de leitura,
    • ajustes nas séries históricas,
    • limites claros para tomada de decisão, evitando comparações distorcidas pré e pós-Reforma.

  • Revisar a rentabilidade real por produto, canal e cliente, eliminando efeitos fiscais artificiais, para:
    • identificar operações estruturalmente deficitárias,
    • redefinir preços, mix de vendas e políticas comerciais,
    • priorizar crescimento com retorno econômico efetivo.

  • Executar simulações financeiras estruturadas para os próximos trimestres, testando cenários de:
    • maior pressão sobre caixa,
    • aumento do custo de capital,
    • necessidade adicional de financiamento, com decisões previamente definidas para cada cenário.

  • Alinhar estratégia, finanças e operação em um único modelo de decisão, garantindo que:
    • decisões comerciais não destruam caixa,
    • decisões operacionais não comprimam margem,
    • crescimento seja acompanhado de liquidez e retorno adequados.

Quem estruturar essa agenda agora ganhará previsibilidade, controle e capacidade de antecipar movimentos. Quem postergar entrará em modo reativo, tomando decisões sob pressão, quando o impacto já estiver refletido no caixa, na margem e na competitividade.

A Reforma não vai quebrar empresas. A leitura errada dos números, sim.

O diferencial competitivo não será pagar menos imposto, mas decidir melhor, mais rápido e com leitura correta do caixa. A Reforma redefine liquidez, eficiência e rentabilidade. Empresas que não ajustarem sua leitura financeira correm o risco de otimizar decisões erradas com base em indicadores distorcidos.

Mais do que conformidade fiscal, o novo cenário exige disciplina financeira, visão integrada e capacidade contínua de simular cenários. Quem entender isso cedo transformará a Reforma Tributária em vantagem competitiva. Quem não entender, reagirá — quando o impacto já estiver no caixa, na margem e nas opções estratégicas disponíveis.

O custo de uma adaptação tardia pode ser alto: perda de competitividade, riscos de autuação e desorganização do fluxo financeiro. A reforma, por sua natureza, não é opcional. A urgência em se adequar não está apenas em atender a uma exigência legal, mas em proteger a continuidade operacional“, cita Cláudio Costa Head da Selbetti Business Consulting em uma reportagem recente no site G1.  

A Reforma Tributária não redefine apenas impostos. Ela redefine o padrão de governança financeira esperado de CEOs e CFOs. Em um ambiente estruturalmente diferente, conselhos, investidores e credores não perguntarão apenas quanto imposto a empresa paga, mas como ela protege caixa, margem e retorno enquanto cresce. O risco não está na Reforma — está em continuar decidindo com números que já não refletem a realidade.

No próximo artigo, vamos aprofundar como a ROMEO.AI apoia empresas na releitura e interpretação dos indicadores financeiros sob essa nova ótica, conectando caixa, eficiência e decisão estratégica em um ambiente tributário estruturalmente diferente.

Fontes:

EY: https://www.ey.com/pt_br/newsroom/2025/09/reforma-tributaria-impactara-mais-metade-processos-empresas

Selbetti: https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/11/22/reforma-tributaria-atualizacao-de-processos-e-sistemas-ate-2026-e-desafio-para-empresas.ghtml